Por Kelson Maximiano
Relendo 'Elogio da Loucura' de Erasmo de Rotterdam, relembrei que a vida só é suportável graças à loucura interior.
Aqueles que não trazem em si a loucura e o caos interior estão sujeitos a uma vida medíocre, sem sentido.
Esse é o ethos perdido, como uma mitologia suplantada por uma lógica
desprovida de seus símbolos, que encarna nos tempos modernos, o vazio e
angustia existêncial que encarna em nossa vida mecanizada pelo mercado.
Hodierno, vivemos uma vida assaz intempestiva, mas desprovida de tudo.
Sempre me remeto a Sísifo, onde seu único momento de reflexão resume a decida da montanha.
Podemos comparar a vida e seus malefícios com a hidra de Herácles, onde
cada cabeça cortada representa duas novas, mais ferozes, argutas e
destrutivas.
Infelizmente a loucura sempre fora tratada como inimiga
atroz, como o empecilho da razão humana. Mas ha de convir que, em suma,
em uma sociedade tão avançada, as mazelas dos tempos modernos se dão
juntamente que sepultamos nossos deuses ancestrais. Não falo do
crucificado que suplantou Dionísio e semeou o terror pela terra em nome
do amor, dessa divinal religião do fogo e do ódio. Mas do fim da ternura
dos deuses antigos, de seus heróis indômitos, loucos; das fúrias,
Alecto, Megaira e Tisífone, eternas vingadoras.
Malsã é nosso tempo,
de ruína e urina, onde o lixo espiritual se amontoa em nosso cérebro
com obstinação mortal, onde os únicos loucos são tratados com a
crueldade de um intelecto objetivo e inflexível, tentando a todo modo,
arrancar suas raízes da terra, matando-os em nome de uma civilização
doente e malgradada.
Não há mais festas e vinhos, orgias, alegrias e
“depravações”. O sexo virou ato de um convento chamado matrimônio, o
vinho é sinônimo de vandalismo, o mosto de outrora é rejeição de agora.
Com a loucura banida, somo vítimas de uma coerção silenciosa, de
chicotes calados e de uma prisão alada, de uma liberdade algemada. Somos
obrigados a sair da caverna em nome da razão, quando deveríamos
adentrá-la ainda mais. Obrigados a cortar laços que deveriam permanecer
pelos séculos dos séculos, mas eis que rompamos e transformamos em
liberdade de competição.
A humanidade empurra a pedra até o cume, e
talvez Prometeu não deveria ter dado o fogo aos homens, que perderam a
ligação com os animais, e jogaram fora a força bruta da loucura, para a
perda do sentido eterno. Mas ainda assim, continuas preso. “Por que me
abandonaste, oh humanidade acéfala? “Se lhes dei o que assar tuas
carnes, vestir tuas mantas e comer a carne de seus amantes! “E eis me
aqui, devorado por abutres em nome do vil esquecimento de meus filhos”.
Ai da humanidade que reza ao deus falso: “Deus, por que me abandonaste
se sabias que não era deus, porque a minha criação volta contra mim
mesmo, e que flagelo é este em mãos tuas que estás a castigar-me, oh
deus meus, criação de meu intelecto”?
Oh morte vilipendiada, onde
está seu antigo frescor de vida? Onde estão as Valquírias que teimam em
não me buscar, rechaçam minha alma e me deixa no limbo? Cruel destino de
dor. Ai de mim, meus deuses morreram, e só, sou algoz do progresso que
mata. Onde estão os heróis antigos, onde estão os benevolentes deuses da
antiguidade, onde está o obsoleto sagrado com a minha loucura interior,
onde está o animal de minhas carnes trancado em meu infeliz cérebro
moderno.
Oh humanidade, curve-se perante destruição. Coma, beba,
farta-se, ainda que por um dia, ainda que benevolência do crucificado
lhe permita uma semana de bem-aventurança da loucura, e após, novamente
colherás a semente da destruição que lhe força durante anos a plantar,
pois, Deméter está morta, eis a sua eterna punição.
Comamos, bebamos, pois eis que a destruição se avizinha em novo ano que sitia a nossa jornada.
A loucura está morta, vã é a esperança que se aparenta indômita, mas
não passa de planta morta. Não se ouve o brado de Dionísio: Evoé; Pois
desta vez, foi morto, enterrado, não plantado, e sepultado na escuridão.
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