Enfim
2013!
Certamente comeste, bebeste, fartas-te, e sua alma está
satisfeita. Claro, qual opróbrio sobrevive ao pode do vinho, símbolo da alegria
e do contentamento. Não é por acaso este o dom de Dionísio para os homens? Não
é a festa e seus rituais um dom dos deuses? Tivemos o nosso bacanal consumista,
com os amados e os amores reunidos à mesa, sem o pudor que a miséria alheia
propicia.
Depois dos voluptuosos banquetes de final e começo de
ano, depois dos votos de prosperidade e felicidade, retornamos nossa vida
Sísifo. Novamente empurrando nossa pedra montanha acima, sem pensar, refletir,
talvez sonhando. Não temos, e nunca teremos a satisfação plena de nosso
trabalho, pois a pedra sempre rolará de volta à base da montanha, e novamente
em frenética repetição, ad eternum,
carregaremos nosso fardo, subindo, subindo, preso a um sonho distante.
Ou não seremos Prometeu? Atados em grilhões de aço para
ter nosso fígado comido por abutres, todos os dias. Já temos o vigor da dor,
ela nos é comum, vamos ser devorados a todo instantes, sugados a todo instante,
pois somos uma reserva infinita de comida e trabalho. Não há clemência, o
inferno é aqui, onde nossas carnes são assadas pelo capital, em espetos de
ossos ressequidos pelo sol e chuva. E continuamos com nossas vísceras servindo
de alimento aos abutres.
Assim caminhamos sob a desculpa de um momento mínimo de
regozijo, mas de uma eternidade de sofrimento. Continuamos na caverna de Platão,
açoitando quem traz novas de fora da caverna. Negando a realidade fria como aço
temperado de uma espada, que perfura cotidianamente nossas entranhas.
Não
há quid pro quo, o que existe são a
servidão, os laços que não nos unem, nos separa, nos tornando selvagens.
Passaremos o ano como? Cada um lutando por sua sobrevivência, matando uns aos
outros para depois em momentos tão efêmeros, acariciar e lamber as feridas que
causamos a outrem.
Não
se enganem, com o vinho, o deuses são traiçoeiros, não há redenção fora do
próprio homem, não há salvação a não ser da união entre aqueles que são iguais,
sugados e deploradas pela besta selvagem que nos transformam em máquinas
brutas, em Sísifos e Prometeus, em sofredores de uma agonia sem fim.
Que
o Homem se revolte contra os deuses, subjugue-os, e tornem-se livres!