terça-feira, 1 de janeiro de 2013

SÍNDROME DE SÍSIFO E PROMETEU




Enfim 2013!
            Certamente comeste, bebeste, fartas-te, e sua alma está satisfeita. Claro, qual opróbrio sobrevive ao pode do vinho, símbolo da alegria e do contentamento. Não é por acaso este o dom de Dionísio para os homens? Não é a festa e seus rituais um dom dos deuses? Tivemos o nosso bacanal consumista, com os amados e os amores reunidos à mesa, sem o pudor que a miséria alheia propicia.
            Depois dos voluptuosos banquetes de final e começo de ano, depois dos votos de prosperidade e felicidade, retornamos nossa vida Sísifo. Novamente empurrando nossa pedra montanha acima, sem pensar, refletir, talvez sonhando. Não temos, e nunca teremos a satisfação plena de nosso trabalho, pois a pedra sempre rolará de volta à base da montanha, e novamente em frenética repetição, ad eternum, carregaremos nosso fardo, subindo, subindo, preso a um sonho distante.
            Ou não seremos Prometeu? Atados em grilhões de aço para ter nosso fígado comido por abutres, todos os dias. Já temos o vigor da dor, ela nos é comum, vamos ser devorados a todo instantes, sugados a todo instante, pois somos uma reserva infinita de comida e trabalho. Não há clemência, o inferno é aqui, onde nossas carnes são assadas pelo capital, em espetos de ossos ressequidos pelo sol e chuva. E continuamos com nossas vísceras servindo de alimento aos abutres.
            Assim caminhamos sob a desculpa de um momento mínimo de regozijo, mas de uma eternidade de sofrimento. Continuamos na caverna de Platão, açoitando quem traz novas de fora da caverna. Negando a realidade fria como aço temperado de uma espada, que perfura cotidianamente nossas entranhas.
Não há quid pro quo, o que existe são a servidão, os laços que não nos unem, nos separa, nos tornando selvagens. Passaremos o ano como? Cada um lutando por sua sobrevivência, matando uns aos outros para depois em momentos tão efêmeros, acariciar e lamber as feridas que causamos a outrem.
Não se enganem, com o vinho, o deuses são traiçoeiros, não há redenção fora do próprio homem, não há salvação a não ser da união entre aqueles que são iguais, sugados e deploradas pela besta selvagem que nos transformam em máquinas brutas, em Sísifos e Prometeus, em sofredores de uma agonia sem fim.
Que o Homem se revolte contra os deuses, subjugue-os, e tornem-se livres!

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